Archive for Outubro, 2006
Aberto para visitas ocasionais
Viu no balcão uma gota de água. Não uma daquelas que você ignora e simplesmente mata jogando um pano qualquer em cima. Era uma daquelas gordas, grandes, brilhantes e redondas. As melhores pra você desenhar e escrever com o dedo. Chego a arriscar que se conseguia escrever uns dois poemas geniais só com a gota. Mas isso não dependia só dela. Enfim.
O sino de trás da porta se espreguiça e acorda berrando. Era o que ele sempre fazia quando alguém resolvia que tentar ultrapassar a parede correndo não era uma boa idéia e usava a porta.
Era uma garota linda, morena, olhos verdes, 17. Usava uma saia que escondia o suficiente para que não se podesse ler a primeira palavra da frase que estava escrita na calcinha dela. Caminhou na ponta dos pés, rodopiou umas três vezes, olhou pra mim – que naquele momento estava atrás do balcão – e exclamou: – “Tens aí algumas gotas para vender?”
Nunca fui de mentir, sabe. Olhei para o verde dos olhos dela e, logo em seguida, para a gota que descansava feliz ainda sobre o balcão. Com um pesar enorme, pensando em tudo que poderia ter feito com aquela gota, respondi, contrafeito:
- Claro, quer que eu embrulhe?
Add comment Outubro 25, 2006