Sem Luz
Novembro 23, 2006
Os fatos que mudam a vida das pessoas geralmente acontecem sem querer. Isso é uma daquelas sagradas Leis que Regem o Universo. Ninguém as conhece, mas obedece simplesmente por ser humano.
Teve um dia desses, na casa de uma família qualquer, que faltou luz. Inicialmente, foi o pânico. Um caos total. Uma cacofonia gritante. O pai gritou com o banho, que de quente vesúvio foi pra frio polar. A mãe gritou, quase a beira da loucura, depois de ver a teve apagando bem na hora em que diriam quem era o pai da Fulana, na novela “dasoito”. O avô gritou pelo mesmo motivo que a sua filha, só colocando alguns palavrões depois do brado. A filha mais velha gritou na frente do computador, frustrada. “Eu tava baixando meu tema, pôxa!”. E o filho menor, já quase dormindo, gritou simplesmente porque tava todo mundo gritando. E achou aquilo tudo “muito legal!”.
Como pode a Luz Elétrica, mãe de todas as tevês, computadores e banhos quentes acabar assim tão de repente? Quando isso acontece, mais uma das Leis é provada: “Só faz falta quando acaba ou vai embora”. E pelo jeito, Ela tinha ido embora e reservado uma passagem para bem longe, pois a casa passou muito tempo na escuridão. Aos poucos, os berros foram se perdendo e uma reunião iniciava na sala, com seus componentes chegando devagar.
A mãe, emburrada e curiosa e o avô, emburrado e boca-suja, afundavam-se no sofá. O pai, enrolado na toalha e com a água gelada ainda pingando, se ajeita na poltrona. A filha, trazendo as velas, senta-se em lótus, observando a dança das chamas. E o pequeno, ainda gritando, entra em disparada no aposento enrolado nos cobertores e trazendo as cartas prum joguinho com o avô.
No mesmo ritmo do fim dos berros, as conversas e as recordações foram aparecendo aos poucos. Enquanto as cartas voavam por cima da vela, ameaçando colocar fogo na casa, a mãe e o pai lembravam como, entre picolés e brigas, eles haviam se conhecido. O avô contava, abatido pela derrota no pife, como havia combatido um exército inteiro de nazistas na guerra do Vietnã. Ninguém acreditava, mas todos se divertiam. Se divertiam com as histórias, com as lembranças e com a comprovação de mais uma Lei: “Conversar é o melhor remédio contra a separação familiar que uma tv causa”.
E essa Lei, o menor, porém mais consciente membro da família, conhecia muito bem. Tirar aquele fusível da caixa de luz, sem que ninguém o visse foi difícil. Mas a reunião e a licença temporária dos gritos dentro de casa compensaram tudo.
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1.
Coimbra | Novembro 24, 2006 at 10:33 am
Putz Alemão, muito bom esse texto cara! Tá dando uma de humilde? Hehe tá certo. Li o vô que batia nos bêbados também, muito surreal, mas esse aqui é demais cara, me lembrou Fernando Sabino, muito bom mesmo!
Valeu pelo link, vou olhar com calma nesse findi.
vou ver se linko teu blog no cronica crua.
grande abraço, no vemos no sjb.
2.
Cícero | Janeiro 22, 2007 at 5:36 pm
Esse tá muito tri cara, a minha namorada adorou , e assumiu ser fã do teu blog também . Continue com ele.
Falows , abraço