Imaginando
Janeiro 25, 2007
Ler, como qualquer um sabe, é a melhor ferramenta para formar a cabeça de um cidadão. Não só um cidadão, como também um publicitário e um jornalista. É normalmente a leitura que mantém pessoas informadas, as discussões mais acaloradas e torna um casamento mais duradouro.
- Onde tu vai querido? – pergunta a esposa, deitada da cama, com um livro aberto no colo
- Vou pra sala, ler. Por favor, não me interrompe, que é agora que aquele monge que mora no esgoto desvia de balas.
Ela dorme tranqüila. “Pelo menos não está com a outra”. Ele lê até as três da madrugada. Depois dorme no sofá, chorando. Descobriu que o monge não desviou de nenhuma bala. Morreu sozinho, pagando seus pecados. A única coisa que o tranqüiliza, é que a mulher “não está com o outro”.
Contudo, algumas publicações deveriam ser totalmente banidas do universo das letras. Não estou falando daqueles manuais de sexo ou a programação da tv americana. Mas todos aqueles que tiram oportunidades. Todos os livros do Veríssimo, por exemplo. Alguém que um dia quer escrever crônicas ou contos nunca poderia chegar nem perto de uma linha que ele escreveu. É um total atentado contra a capacidade criativa de alguém imaginar. O Filho do Érico já pensou em todo o tipo diferente de situação e citação e pessoa e animal que tivesse uma mínima chance de virar uma crônica.
Eu imagino (mesmo já tendo lido muitos livros deles, ainda tenho uma fagulha dessa capacidade) um cara (que pode ser mulher, isso não muda nada) tentando escrever alguma história muito engraçada.
Ele nunca leu Veríssimo.
Tem um cara do lado dele que já leu quase tudo do Veríssimo. Ele não precisava estar no conto, mas está para que haja um diálogo com o escritor.
Monólogos, hoje em dia, já estão desgastados.
- Já sei, vou escrever sobre uma vez em que duas pessoas, um homem e uma mulher, ambos vizinhos um do outro, que moram no mesmo prédio, se encontram no elevador. Cada um deles está levando um saco de lixo. O seu saco de lixo. Aí eles têm uma conversa sobre seus lixos. Um olha o lixo do outro e tira conclusões sobre isso. O meio é cheio de sacadas engraçadas e, no final, o homem diz pra mulher “No seu lixo, ou no meu?”.
Quando ele acaba de falar, desaba no chão de tanto rir, maravilhado com sua criatividade.
- Calma Alfredo (ou Emengarda, caso você esteja considerando que o escritor é mulher). Calma. Me dá uma pena te desapontar, mas o Luis Fernando Veríssimo já escreveu uma crônica assim.
O escritora (a partir daqui, vamos intercalar o escritor e escritora, para agradar ambos os lados) escuta e ainda continua rindo, mas com aquela cara de que não acredita.
- Com o mesmo final, até. – completa o tapa furo do texto
Aí sim, o escritor para, com cara de “o Bush se reelegeu”, e indaga:
- Como assim? Quem é esse? Mesmo final que o meu?
- Sim. Luiz Fernando Veríssimo, cara (ele é daqueles que chama todos de cara, tanto homem, quanto mulher). Filho do Érico. Já escreveu bastante coisas, o cara.
O escritora olha para cima, assume a cara de “procurando nos registros internos”, mas parece não encontrar nada.
- É, não conheço. – ele/ela dá de ombros – Vou pensar em outra coisa então. Uhm…talvez…escrever sobre a palavra “defenestrar”. Como pouca gente conhece o significado da palavra, eu poderia contar uma história engraçada sobre atirar pela janela que no final…
- Também – diz o baixinho (imagina que ele é baixinho. Não consegue? Tá, primeiro larga o Analista de Bagé. Iiiisso, agora, imagina).
- Também o que?
- Veríssimo. Já escreveu sobre essa palavra. Sobre sílfide e fornida também. Seborréia já apareceu duas vezes nas crônicas. Passei a até encarar seborréia de uma maneira mais respeitosa depois que ela apareceu nessas duas crônicas.
O escritor desanima. “Esse tal de Veríssimo roubou todas as minhas idéias. Antes mesmo delas aparecerem pra mim”. Mas tenta mais uma.
- Tá, e que tal essa. Um cara chega em casa depois do trabalho, á um oi pra família e quando vai dormir aparece um diretor e diz “Corta!”. O cara não entende e…porque você está me olhando com essa cara? Também?
O baixinho (já conseguiu imaginar?) apenas faz um gesto com a cabeça de para-cima-e-para-baixo.
(Para achar um pouco mais engraçado, leia o diálogo abaixo bem rápido, com lances de câmera igualmente rápidos. Lembre-se: imagine)
- Uhm…e sobre…sobre um analista que…
- Analista de Bagé. Teve um livro dele já.
- Um detetive chama…
- Mort. Ed Mort. Está na plaqueta. Em livro também.
- Uma velhinha que ainda acredita no Governo?
- Ahãm. Velhinha de Taubaté. Já leu?
Alfredo/Emengarda não responde. Desiste. Esse tal de Veríssimo já roubou todas suas idéias. Não existe mais nada no universo para que ele possa escrever algo engraçado. Pensou até em escrever um texto sobre esse diálogo que ele teve com o baixinho. Mas achou que alguém já poderia ter feito isso.
——————————————
Texto antigo, que eu postei num dos primeiros blogs que tive. Sei lá porque motivo, mas sempre gostei dele, apesar do certo exagero que o tempera. Por favor, esqueçam o acento em todos os Verissimo que vocês leram. Tou com preguiça de colar no Word e revisar um por um.
Aliás. Não, não estou sem inspiração. Este texto é antigo, mas amanhã posto um novinho em folha.
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1.
Alan | Janeiro 26, 2007 at 12:40 am
Bom, nunca li nada dele nem do filho dele, pra dizer a verdade, sou um animal de ignorante, mas fiquei pensando “será que ele escreveu sobre tudo mesmo ???”, hauhauhuahua, dúvido muito, ele ia ter que morrer umas 15 vezes pra faze tal façanha.
Como sou fã de música pesada (não, o Fat family já acabou faz tempo), dúvido muito que ele tenha escrito algo sobre o Black Sabbath, se já escreveu, então dúvido que ele tenha escrito algo sobre o Savatage.
2.
Cícero | Janeiro 26, 2007 at 1:05 am
Bão esses dois aí. Huahuahuahuhaua aquele comentário de cima só pode ser do Cavalo .
Concordo com ele , e sou tão ignorante quanto ( por não conhecer muito bem os dois , conheço mínima coisa do filho ) , mas ele escreveu de tudo mesmo ?
3.
Alan | Janeiro 28, 2007 at 5:20 pm
Bom Cícero, a gente faz o que pode !!!!
4.
Coimbra Bill Ward | Janeiro 29, 2007 at 4:52 pm
É Tchê! Camarada Alan: pior é que o cara escreveu sobre tudo isso mesmo. Chega a ser irritante. Fiz minha versão de criação do mundo http://cronicacrua.blogspot.com/2006_03_01_cronicacrua_archive.html, e uma vez uma ex-namorada minha me veio com uma que ele já tinha feito. Mas ele não escreveu sobre a vida dos brigadianos, o grande Oscar(alho) Bessi sim, nem sobre cotias e malabares como o Alemão. Eu escrevi sobre a problemática do Ovo curtido de buteco, ele não. E outra alemão: minha próxima crônica traz uma palavra sobre a qual ele também não discorreu, espera! hehe, é… o verissimo é superável…
5.
Oscar Bessi Filho | Janeiro 30, 2007 at 12:41 am
Alemão, será que o Veríssimo já escreveu sobre um brigadiano que escreve nas horas de folga e num belo dia desistiu de escrever? Por quê? Por quê? Porque ele foi atrás de um professor cabeludo com nome de cidade portuguesa que o chamou de Oscar-cebola (ou foi alho?) em pleno Blog de seu ídolo juvenil. cara, muito bom teu debate, mas discordo: o cara escreveu sobre muita coisa. Mas o universo das idéias é infinito. Aliás, vou escrever sobre isso… Ou será que ele já escreveu?
6.
Coimbra | Janeiro 30, 2007 at 5:05 pm
Como assim atrás Oscar?
Prestenção!
7.
Alemão | Janeiro 30, 2007 at 5:09 pm
Peraí.
O Oscar tava atrás de ti, sor?