Resenha – Vivid, Living Colour
Março 22, 2007
No final da década de 80, a coisa não estava lá muito organizada no mundo do rock. O Hard e o Glam estouravam e bandas como Guns n’Roses, Poison e Bon Jovi faziam o som do momento regado de plumas, roupas brilhantes, calções de ciclista socados do rêgo, drogas, muito sexo com groupies e trejeitos extremamente frescos. Enfim, não que o Rock algum dia foi civilizado, mas aquela história já estava indo longe demais.
Eis que surge então, vindos do suburbio de Nova York, um quarteto que misturava o próprio Hard Rock com Heavy Metal, Reggae, Hip Hop, Rap, Funk, Jazz e algumas cirandas infantis. Um quarteto que possuia instrumentistas extremamente habilidosos, com uma bateria ténica pra chuchu, um baixo muito presente, uma guitarra vorazmente rápida e um vocalista que mostrava todo o poder e a força de um vozerio negro.
Sim, o Living Colour era formado exclusivamente por negros, o que nas apresentações em botecos nova yorquinos chocava mais do que o talento que todos eles tinham com seus instrumentos. Um que ficou especial e positivamente surpreendido com a música dos caras foi um vocalista que possui até hoje uma pequena reputação no mundo do Rock. Foi só Mister Mick Jagger sentar no fundinho do bar e escutar dois ou três músicas do quarteto que, umas duas semana depois, eles já tinham um contrato com a Epic.
Em 1988 entra então nas paradas o álbum de estréia do Living Colour, Vivid.
O disco se incia em um discuro inflamado (tá, nem tão inflamado assim) do líder Malcom “X” Little, defendendo o direito dos negros terem uma terra só deles, em que todos falem uma língua só. Ou algo do tipo. Serve como uma introdução para uma das músicas mais conhecidas do Colour, “Cult of Personality“. Falando sobre o lado negro (sem trocadilhos) de ídolos que são seguidos cegamente, a canção tem uma levada marcada por influencias metaleiras (sic), com a bateria de William Calhoun bem compassada e a guitarra do extremamente fodástico Vernon Reid em um riff bem característico. Aliás, os 0:54 segundos de solo dessa música lembra muito Jimi Hendrix, com uma distorção bem ao estilo do mesmo. Magnífico, um dos melhores solos que já escutei e viajei na minha vida. A música encerra com a voz morena de Corey Glover gritando “I’m the cult of” sendo calada por uma curta levada de Speed Metal e com Franklin D. Roosevelt dizendo “A única coisa que nós devemos ter medo é do próprio medo*”.
Ou algo do tipo.
Em “I Want To Know“, já temos algo mais calmo, mesmo com a guitarra de Vernon soando pesada ao fundo e o baixo de Muzz Skillings se sobressaindo em alguns momentos. Com um refrão que diz “Eu quero saber/ Me dê um sinal, garota/ Abra seu coração e diga que você é minha*”, a música fala sobre amor de uma forma bobinha e inocente e isso se torna mais forte lá depois do segundo refrão, quando a canção toma ares de anos 60, com o baixo marcando os passinhos de dança no salão. É uma parte bem curta e divertida. Novamente o solo se destaca e novamente ele lembra muito Hendrix e até mesmo Red Hot, nos tempos do Blood Sugar Sex Magik. Fica nisso, até acabar em fade out.
The next song is “Middle Man“, que mostra pela primeira vez o Funk aparecendo como um elemento bem presente na melodia. O baixo mais uma vez se destaca, mesmo que somente soando ao fundo. A letra, que em uma primeira lida, mostra apenas a história de um homem que se sente um estranho no meio de tanta gente, na verdade foi baseada em anotações de um carta de despedida de Glover, que estava pensando em suicídio. Se olharmos por essa ótica, versos como “Eu não tenho a necessidade de ser o melhor/ Apenas não queria ser como os outros / Sendo assim como sou / Sou apenas um ordinário homem mediano*”, soam bem mais diferentes e significativos. Apesar d’eu gostar da música em si, acho a mais fraca do disco.
Eis que surge então, “Desperate People“. Ela começa em silêncio absoluto. Contudo, em segundos, os ouvidos mais sensíveis já percebem ao fundo o grito de uma guitarra surgindo e levantando gradativamente sua voz. Até que BOOM! Calhoun, Skillings e Reid estouram na introdução com um Power Metal magnífico, lembrando muito o som do Helloween, que dura cerca de um minuto, quando é domada pelo berro de Glover, que logo rasga com a estrofe: “I see your cry in the sunshine/ I hear your laught in the rain/ You say: you can’t tell any difference/ Between pleasure and pain”. Essa, ao contrário de Middle Man, é muita mais explícita no assunto de suicídio, fundo do poço e depressão, com uma letra que usa frases mais diretas e metáforas mais claras. A batida segue ‘num metal do início ao fim, entrecortado às vezes por uns agudos do vocalista, que demonstram claramente o poder e versatilidade da sua voz. A melhor do disco, na minha modesta opinião.
Aqui a canção de Reid, “Funny Vibe“, se inicia numa mistura de Punk e Metal e segue por um bom tempo, onde chega a se cogitar uma faixa totalmente instrumental no disco. Não mais que derepente, o ritmo se quebrar em pedaços, vira Reggae e um dos hinos anti-racistas o LC toma forma. “Não vou te roubar/ Não vou te bater/ Não vou te estuprar/ Então porque você quer me dar isso?”, diz a letra, que sinceramente, não sei o que porras quer dizer exatamente. O que importa mesmo é que lá pelo meio (após mais um solo de Vernon, pra ser mais exato) a música vira um Funk Metal e, quando você já está quase pirando com tantas mudanças rítmicas, gritos símios e alguns manos soltando um hip-hop ao fundo, a música vai sumindo, baixando, baixando…até surgir novamente em alto e bom som, por segundos, para encerrar de vez a viageira.
Começando com ares de balada, “Open Letter (To A Landlord)” é mais uma bela demonstração de como os músicos e as músicas do Living Colours são extremamente maleáveis, sem nunca perderem sua identidade. O que começa como uma música calma, se transforma em minutos ‘prum Hard Rock que logo no refrão, vira uma melodia que soa com força e com intenções de passar esperança, já que a letra fala da luta de um (ou mais, minhas traduções são muito fajutas) morador para manter “de pé sua vizinhança”. Parece bobinha e ingenua, mas pra mim, é tocante. E ponto final.
“Memories Can’t Wait” é cover do Talking Heads. Infelizmente não achei a versão original para comparar com a extremamente fodástica música que o Colours fez. Iniciando com um riff soando a New Metal, a canção tem ares meio lisérgicos, com um Glover de vocal robótico e neutro e vozes no fundo que ecoam como se estivessimos na cabeça de um drogado. Contudo, como em quase todas as canções do LC, depois descamba pra algo um pouco mais calmo e logo em seguida, acelera e quase se torna um Power metal a lá Desperate People. É mais uma música sanfona, que vai subindo e descendo, aumentando e diminuindo. (sem trocadilhos nessa última frase, rapazes.)
Mais uma canção de amor, “Broken Hearts“, tem como destaque a participação de Mick na gaita, enchendo lingüiça em certos momentos da canção (mentira, essa foi só pra implicar com o Gabo. Gostei dessa participação dele). É uma música que te dá vontade de abraçar quam tiver mais perto, dar as mãos e fazer uma volta ao mundo balançando os bracinhos pra cima, de tão boa e felizinha que é a melodia. Um baixo aparente (que tem um mini-solo beeem foda), uma bateria que marca com força o tempo da música e a guitarra distorcida que apenas ecoa ao fundo fecham direitinho com uma voz que passa uma sensação de esperança, de “esse mundo pode mudar! Vamos lá, mãozinha pra cima pessoal! Canta comigo!”. Mais pro fim, a música entra em uma levada blues/hip-hop bem divertida, que dura alguns segundos e finalmente termina. Pode soltar as mãos do seu amiguinho e voltar pro que estava fazendo.
Pelo visto, Mick gostou de estar entre quatro negrões (ui) e participou da faixa que ficou entre os primeiros lugares da parada americana de 1989, “Glamour Boys“. É uma mistura bonita de Reggae, Rock, Vocaizinhos Legais Falando “Uuuuuuu” no fundo e um refrão Metal. Coisa linda de Deus! A letra fala sobre o tais Meninos Glamurosos, que vivem vidas de malandros boas-pintas, que dançam e se divertem a noite inteira sem dinheiro nenhum no bolso. Ou seja: uma música dedicada a maioria dos brasileiros! Esses caras realmente são muito simpáticos e essa música tem mesmo jeito de hit.
“Qual sua cor favorita, baby?”, pergunta Glover após o grito que sinaliza que a faixa “What’s Your Favorite Color? (Theme Song)” teve início. Seguindo a mesma linha rítmica de “Funny Vibe”, essa música serviu mais pra (acredito eu) fazer um trocadilho com o próprio nome da banda, já que a pergunta do início é respondida em coro: “Living Colour!”. Se tentaram colocar metaforicamente alguma mensagem de qualquer natureza no meio, é no trecho que diz “What’s your favorite color, baby?) / It is black?/ Come back”, mas acho que não. É uma boa canção pra se cachoalhar os ombos e só.
Finalizando o disco, “Which Way To America?. Uma letra ácida e corrosiva de Vernon Reid, que critica o controle da Tv sobre a população americana, faz uma boa parceria com a melodia “regueira” do início mas que logo muda para algo mais pesado, com uma cara de Funk Metal. Após o solo (novamente destruidor), no fundo o Hip Hop entra em ação mais uma vez e alguém canta “Where is my picket fence?/ My long, tall glass of lemonade?/ Where is my VCR, my stereo, my T.V. show?”. Tudo termina então com um riff de guitarra soando Hard Rock, uma bateria com murros secos, um baixo extremamente visível e Glover gritando como um macaco doido “América, América, América, uhuuuuuuhuuuhuhu”. Está acabado.
Enfim. Não é um disco que revolucionou a história do rock. Não é um disco que marcou época por ter experimentalismos doidos, viagens lisérgicas ou algo do estilo. É apenas um disco bom, que deveria ser escutado e respeitado por ser um dos primeiros a apresentar tantas misturas de estilo em apenas 11 músicas, acho eu.
Esse álbum pra mim, contudo, me fez pensar se o tal do Elvis Presley não roubou mesmo o direito do negros de dizer que o rock n’roll foi criado por eles.
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1.
Coimbra | Abril 3, 2007 at 3:25 pm
Cara! Muito bom. Isso que tu nem é das épocas. Ótimo avaliação, embora nem tudo eu conheça. Enfim…vai lá que tem texto novo. Abraço.