Archive for Agosto, 2007

Tornozelos

Tornozelo

- Zé! Olha, Zé! Tá chegando alí na curva, Zé!
- Ai, ai, vai, pelamordedeus! Senhor! Tá vindo!
- Shiu, Zé! Shiu! Se abaixa aí.
- É emoção demais, Jesus. Olha, tá quase, tá quase!
- Calma, homem. Não morre enquanto ela não descer. A última coisa que eu quero é me incomodar com defunto nessa hora.
- Calma, isso. Uf-uf-uf. Respira, Zé… Um, dois, trêsiameudeusPAROU!
- Shiu, abaixa, abaixa!

Calmamente, o cocheiro da carruagem fechada, que vinha devagar pela estrada, segurou o freio, parando os cavalos. Saltou do banco, dirigindo-se à porta do transporte e a abriu, cheio de reverência.

Descuidada, a jovem moça, trajando um branco vestido longo, saiu do interior precipitada e pulou os degraus, descobrindo seus tornozelos.

Zé e Jorge acompanhavam em êxtase. Ela fez de novo. Aquele tornozelo se desnudou novamente.

- Zé. Tu viu?
- Vi, Jorge. Ai meudeus.
- Espera então quando criarem a Internet!

3 comments Agosto 7, 2007

Sem Computador, Com Vonnegut

Poisé. Fiquei uma semana sem computador em casa. Foi uma maravilha. Tu não percebe que computador é um algoz do teu cérebro – e, em conseqüencia, da tua criatividade, memória e atenção – até que ele tenha um daqueles faniquitos repentinos que só são resolvidos na assistência técnica.

Então. Uma maravilha. Em dois dias daquela semana, fui na biblioteca mais vezes que havia ido nos últimos seis, sete meses. Encontrei uns livros do Kurt Vonnegut, o injustiçado Vonne. Digo injustiçado porquê, dos dois livros que retirei lá, um havia sido alugado pela última vez em 1989 e o outro em 1993. Tu saca quando tempo é isso? Um daqueles livros ficou a minha vida inteira sem ser retirado das pratelerias ao menos uma vez, caraca. Ficou lá, jogado, se sentindo um inútil. Cheio de potencial, mas inútil. E sentindo com razão, pois ambos eram livros maravilhosos, com o selo de qualidade Vonnegutiana.

Pastelão ou Solitário, Nunca Mais é um romance, onde ele conta a história da infância dele e da irmã, sob um ponto de vista fantasioso. O cenário é Manhattan no futuro, devastada por uma doença chamada Morte Verde, que dizimou a população mundial. Assim como em todos os livros desse gênero, Vonne se direciona totalmente pra ficção científica e para relato de fatos totalmente non-sense (e bizarros, por vezes), mas que sempre carregam consigo diversos significados. Significados esses, que depois de compreendidos, chocam e evidenciam toda a genialidade do ex-melhor escritor vivo da América.

O outro era Mundo Louco ou Welcome to Monkey House, coletânea de contos, igualmente bizarros e inusitados. Começa em um futuro onde as pessoas são proibidas de raciocinar por muito tempo, passa por um xadrez que vale a vida de vários prisioneiros e chega até um futuro onde a fonte da juventude faz com que o mundo fique superlotado, pois ninguém mais quer morrer. Aqui, Vonne revela uma mistura de L. F. Verissimo e Douglas Adams na sua escrita. Ou seja, cerveja total e estupidamente fora de série.

Meu conselho pra quem quer ler Vonnegut? Leia com a mente aberta e pronto pra pensar. Se não, certamente tu vai achar tudo uma grande besteira sem fundamento, um mero texto de ficção-cinetífica debilóide sem nenhum significado. O que é uma grande e horrenda e filha da puta heresia, oquei?

Filha da puta mesmo, benhê.

1 comment Agosto 4, 2007


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